LENNON

9 de dezembro de 2020 17:18 | Publicado por Leandro Fortes

Tenho buscado uma forma de escrever sobre minha relação pessoal com os Beatles e como me aproximei da música deles, em dezembro de 1980, justamente porque, no dia 8 daquele mês e ano, John Lennon foi assassinado, em Nova York. Eu tinha 14 anos, gravitava em torno de interesses difusos, mergulhado num misto de sonhos e literatura infanto-juvenil que consumia, compulsivamente, a partir de catálogos de entrega postal das Edições de Ouro.

Digo que tenho tentado escrever porque minha relação com os Beatles, embora intimamente ligada à minha formação pessoal, não é de especialista nem de fã tresloucado. Lennon sequer é meu beatle preferido, sempre me identifiquei muito mais com as canções melosas, sentimentais e intimistas de Paul McCartney.

Falta-me portanto, além de conhecimento, isenção para oferecer uma análise mais profunda do impacto real da obra dos Beatles sobre as mentes e corações, por exemplo, das novas gerações.

Quando Mark Chapman crivou Lennon de balas, em frente ao Edifício Dakota, uma onda posterior ao assassinato levou emissoras de rádio, em todo mundo, a reviver a beatlemania. Em Salvador, não foi diferente: por muitos dias, talvez meses, as canções dos Beatles passaram a ocupar massivamente a programação das rádios e, não sei dizer exatamente por que, aquelas músicas me tocaram de forma definitiva, a ponto de alterar minha condição psíquica e emocional.

Porque Lennon havia morrido, obriguei-me a aprender a tocar violão e, mais tarde, piano, de maneira a poder me sentir de forma mais integral dentro daquele sentimento. Por alguns anos, na imersão ao mesmo tempo conflituosa e reflexiva da minha adolescência, parte dela vivida dentro de um internato militar, a única arte possível de alimentar minha alma era a obra dos Beatles.

A morte de Lennon, portanto, não foi um momento de tristeza nem de espanto, mas o início de um processo poderoso de identificação tardio que se arrasta até hoje.

As canções pós-Beatles de Lennon me interessam mais do que as a ele atribuídas no período de parceria com McCartney. Talvez porque, sem a pressão da beatlemania, Lennon, indiscutivelmente o mais politizado e intelectualizado dos Beatles, tenha podido exercer o livre pensar de forma holística e multifacetada, uma mistura de sonhos e pretensões sociais que ele resumiu, a meu ver, na canção “Imagine”.

Minha preferida dos Beatles é “For no one”, composta por Paul McCartney, uma canção barroca que me encantou pela encadeamento melódico, justamente na fase de encantamento inicial pós-morte de Lennon, e que, mais tarde, quando pude traduzi-la, se incorporou às minhas jornadas sentimentais:

Mas neste momento em que finalmente consigo escrever a respeito estou ouvindo “Mind games”, passeando mentalmente com Lennon e Yoko Ono sobre as folhas de outono caídas no Central Park, como no clip cheio de melancolia, tristeza e solidão que eternizou essa canção, de 1973.

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