Quem é Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e novo presidente da Colômbia

20 de junho de 2022 09:44

Economista, líder social, ex-guerrilheiro e presidente. Essas características ajudam a definir quem é Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia. Um presidente que parecia improvável há uns anos, se tornou inevitável diante do processo de lutas sociais que o país viveu no último período contra a tragédia do neoliberalismo e a tirania de um governo autoritário e repressivo.

Dados do Cartório Nacional da Colômbia indicam que a chapa formada por Petro e Francia Márquez conquistou 50,48% dos votos contra 47,26% da chapa comandada pelo empresário Rodolfo Hernández. Petro se torna o presidente mais bem votado da história da Colômbia, com um apoio de 11,2 milhões de eleitores nessa disputa de segundo turno. A participação ficou em 58%.

“Hoje é dia de festa para o povo. Que ele celebre a primeira vitória popular. Que tantos sofrimentos sejam amortecidos na alegria que hoje inunda o coração da Pátria. Esta vitória para Deus e para o Povo e sua história. Hoje é o dia das ruas e praças”, escreveu Petro nas rede sociais após ser eleito presidente. Hernández já admitiu a derrota enquanto o presidente Iván Duque, de extrema-direita, ligou para felicitar o eleito.

Diversas lideranças latino-americanas e internacionais celebraram o triunfo de Petro, incluindo o ex-presidente Lula (PT). “Felicito calorosamente os companheiros Gustavo Petro e Francia Márquez e todo o povo colombiano pela importante vitória nas eleições deste domingo. Desejo sucesso a Petro em seu governo. A sua vitória fortalece a democracia e as forças progressistas na América Latina”, tuitou.

Quem é Gustavo Petro?

Gustavo Petro, nascido na província de Córdoba em 1960, começou sua militância política aos 17 anos no grupo guerrilheiro Movimento 19 de Abril, conhecido como M-19. Foi preso e torturado e participou do processo de abandono das armas que transformou o M-19 no partido político Aliança Democrática M-19.

Em 1991, foi eleito deputado pela Aliança e, em 1994, foi nomeado para a Embaixada da Colômbia na Bélgica como diplomata dos Direitos Humanos, posição que ocupou até 1996. Ao retornar para a Colômbia, Petro disputou novamente uma vaga na Câmara dos Deputados, mas desta vez pelo distrito de Bogotá. Eleito, foi considerado um dos melhores deputados e seu trabalho ganhou destaque por conta de denúncias de corrupção. 

Em 2006, Petro foi eleito senador, cargo que ocupou até 2010, quando se lançou pela primeira vez à presidência. Na ocasião, obteve 1,3 milhão de votos e ficou em quarto. Apesar da derrota na disputa presidencial, conseguiu em 2012 ser eleito prefeito de Bogotá e sua luta ganhou ainda mais projeção

Por ter passado pelo abandono de armas no M-19 foi um dos articuladores do Acordo de Paz de 2016 e, nas eleições de 2018, acabou representando a luta pela paz na disputa. Petro obteve uma votação histórica para um candidato de esquerda, com mais de 8 milhões de votação, mas não foi capaz de vencer o uribismo, representado por Iván Duque.

Processo de lutas

A vitória de Petro representa muito mais que sua trajetória política individual, ela é fruto de um processo de mobilizações que sacudiu as estruturas da Colômbia no último período. A população, esgotada das políticas de precarização da vida promovidas pelo neoliberalismo e pelo uribismo, se insuflou em jornadas que foram fortemente reprimidas pelo governo de extrema-direita. A desigualdade se aprofundou enormemente no governo Duque, que sai extremamente mal avaliado do governo. 

A esquerda conseguiu se impor e disputar o futuro do país depois de décadas de assassinatos, perseguições e proibições que impediam um embate real. Esses assassinatos, inclusive, continuaram acontecendo. Dados do Indepaz indicam que durante o governo Duque, 930 líderes sociais e defensores de direitos humanos foram assassinatos, 261 massacres foram realizados e 245 pessoas que assinaram os acordos de paz de 2016 foram assassinados.

A ativista ambiental Francia Márquez, companheira de chapa de Petro, será a primeira mulher negra a chegar à vice-presidência da Colômbia e também é fruto desse processo de lutas populares. 

A violência de Estado na Colômbia, patrocinada pelos Estados Unidos, parece estar próxima de um fim pela primeira vez e será um dos principais desafios do governo Petro, que terá que lidar ainda com a desigualdade escandalosa e o altíssimo desemprego da juventude.

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