BOLSONARO, ATÉ AQUI

16 de janeiro de 2026 12:52 | Publicado por Leandro Fortes

É um erro comum tentar classificar o bolsonarismo e, por extensão, os bolsonaristas, por meio de adjetivos. A raiva, a indignação e o desejo de vingança alimentaram esse vício por bastante tempo, até que as circunstâncias foram colocando Jair Bolsonaro, aos poucos e por diversos níveis de degradação, naquilo que costumamos chamar, sem muita convicção, de “lixo da História”. Restou essa figura narrada por terceiros que, numa hora, soluça, noutra, fica sem ar, noutra, se contorce em gases, cai da cama, reclama do ar-condicionado, pede para morrer e, quando não está mentindo, articula para tentar eleger o filho, um delinquente vinculado ao crime organizado do Rio de Janeiro, presidente da República.

Não há mais um adjetivo – ou um conjunto deles – para definir em que se transformou esse fenômeno derivado de um número também indefinível de variáveis políticas, sociológicas, econômicas e educacionais. Em um exercício de construção de discurso, de modo a simplificar a dimensão do objeto, a classificação ideal, sem necessidade de muita explicação, deve estar entre o cruel e o patético, embora a análise do fenômeno deva ser compreendida a partir daqueles que apoiam o bolsonarismo – essa mistura complexa de ignorância, fanatismo, ódio e insensatez cuja função didática foi nos mostrar, de forma aterradora, do que foi feito da maioria do povo brasileiro ao longo décadas de super exploração dos trabalhadores, de concentração de terras, de desigualdade social, de modelo de capitalismo dependente, de corrupção das classes dominantes e de esvaziamento do papel do Estado nas áreas de saúde e educação.

Preso, Bolsonaro vive, antes de tudo, o paradoxo de ser responsável e vítima de uma família disfuncional na qual, aparentemente, o viés criminal foi potencializado pela incapacidade cognitiva de todos os filhos, uma deficiência compensada, até certo ponto, por uma disciplina quase militar para cumprir tarefas e dizer coisas absurdas. Por isso mesmo, as coisas começaram a desandar quando, por ordem de Alexandre de Moraes, Bolsonaro foi colocado em isolamento, impedido de se movimentar física e digitalmente pelo esgoto político onde viveu nos últimos 40 anos, e com o qual inundou a política e a sociedade brasileiras, a partir de 2018.

A fuga de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos, incialmente comemorada como uma estratégia bem sucedida para fomentar as hostilidades do governo Donald Trump contra o Brasil, rapidamente se transformou em um tiro pela culatra. As sobretaxas fraturaram o campo bolsonarista no agronegócio e a Lei Magnitsky, contra Moraes e outras autoridades brasileiras, durou tempo suficiente apenas para se transformar em humilhação, ao ser revogada. Hoje, Eduardo é um fantasma semi-viral nas redes, graças, ainda, à ajuda de boa parte da mídia golpista e ao muito que ainda resta dos esquemas digitais da extrema-direita. Na vida real, trata-se de um fugitivo sem mandato, sem emprego e em vias de ser capturado pela polícia de imigração estadunidense, quando se tornar descartável, por fim.

Carlos e Jair Renan, cada um a seu modo, têm problemas mentais agravados pela ausência de comando específico, embora o caso do vereador do PL, em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, pareça ser mais grave. Carlos, porta-voz caótico das dores do pai, ajudou a bagunçar o reduto bolsonarista catarinense ao ter a candidatura a senador imposta aos dementes que, lá, seguem cegamente o Messias. Jair Renan será candidato a deputado federal, mesmo sem conseguir completar frases, flexionar falas e fazer um “o” com o copo. Ambos têm grande chance de serem eleitos. Santa Catarina, infelizmente, virou essa fossa. Ainda assim, caminham para se tornarem somente pontos de contenção da extrema-direita pelo valor simbólico, haja vista a notória incapacidade da dupla de falar, legislar, trabalhar e liderar, ainda mais ao mesmo tempo.

Resta Flávio Bolsonaro, o primogênito, senador da República que, quando deputado estadual, no Rio de Janeiro, empregava a família de um matador profissional no gabinete e roubava recursos públicos (peculato) a partir de um esquema de extorsão de parte dos salários dos funcionários, a chamada “rachadinha”. Também ficou conhecido por ser sócio de uma franquia de loja de chocolates apontada, pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, como ponto de lavagem de dinheiro da família. A mesma família acusada de comprar mais de 100 imóveis, no Rio, metade dos quais em dinheiro vivo.

A união dessas cabeças-de-bagre está por trás da estratégia desastrada que pretendia, a partir de uma convocação de Flávio, criar as condições para uma fuga desesperada de Bolsonaro do condomínio onde cumpria prisão preventiva domiciliar, em Brasília, depois de rompido o lacre da tornozeleira eletrônica que o ex-presidente ostentava – da qual tentou se livrar usando uma solda caseira. Seguiu-se a isso o plano de transformar Bolsonaro em um paciente terminal, quando ele estava na Polícia Federal, no cumprimento da pena de 27 anos, com denúncias lacrimosas sobre crises de soluço e prisão de ventre, e, depois, a ladainha da “tortura” do barulho do ar-condicionado. Arranjaram até uma cirurgia de hérnia para o infeliz.

Resultado: Bolsonaro deu tanto trabalho para a PF que acabou mandado para a Papuda, ou melhor, para a Papudinha, uma prisão-pousada com banheiro privado e lavanderia, mas sem ar-condicionado. Não é o ideal, mas, vamos combinar, é um bom começo.

Foto: Gerada por IA

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