SUICÍDIO

SUICÍDIO

Respondam com sinceridade: quantas pessoas vocês conhecem que se mataram porque leram a carta de um suicida, ou porque souberam da notícia de um suicídio? Provavelmente, zero. Eu tenho 54 anos, 34 de jornalismo, nunca soube de um único caso. Essa é mais uma dessas fantasias que, arraigadas no senso comum, tornou-se um dogma. No jornalismo brasileiro, a divulgação de suicídios tornou-se um tabu, ao contrário de notícias de estupros de criança, por exemplo.

O poeta russo Vladimir Maiakovski, que se suicidou, em 1930, escreveu assim, em sua carta de despedida:

“A todos.

Ninguém é culpado da minha morte e, por favor, nada de fofocas. Ao defunto não lhes gostava.

(…) Acabou- se,

o barco do amor

se arrebentou contra a vida cotidiana.

Estou em paz com a vida, não vale a pena recordar

sofrimentos,

desgraças

e mútuas ofensas.

Sejam felizes.”

Quantas pessoas, ao ler essas palavras, se jogaram de prédios, tomaram veneno ou deram um tiro na cabeça, aliás, como o fez o poeta? Duvido que vocês conheçam alguém que tenha morrido depois de ler a carta de Maiakovski.

E a carta-testamento de Getúlio Vargas? Quantos brasileiros se jogaram do Cristo Redentor ao saber que o presidente, ao se matar com um tiro no peito, em 1954, escreveu “saio da vida, para entrar para a História”? Até onde eu sei, nenhum. O Google também não tem um único registro.

Mas, com certeza, vocês conhecem alguém que conhece um caso, uma história ou um conhecido que leu um estudo a respeito. Mais ou menos como uns parentes distantes que, diziam meus avós, morreram na hora quando comeram manga com leite ou, desgraça pior, abriram a geladeira com o corpo suado – nesse caso, os que não morreram ficaram com a boca torta para o resto da vida.

Albert Camus, genial escritor e filósofo argelino, dizia que o suicídio é o único problema filosófico verdadeiramente sério. Referia-se, claro, ao suicídio como fenômeno social, não àquele provocado por patologias mentais.

Não há como relativizar a dor de quem se mata, nem muito menos a de amigos, parentes e amores de suicidas. Cada vez que alguém morre por vontade própria, não há como não questionar nossa própria humanidade nesse show de horrores que é a vida, quase todo o tempo.

Por isso, sempre achei bisonha essa discussão sobre esconder o suicídio – e os suicidas – do mundo. Na verdade, essa obsessão em escondê-los tem muito mais a ver com os medos que temos dos nossos demônios interiores, que estão sempre olhando para penhascos, do que com a dor de quem decidiu se matar.

O suicídio do fabuloso Flávio Migliaccio é uma notícia tristíssima, mas não foi um espetáculo de terror. A carta que deixou ao mundo (“a humanidade não deu certo”), portanto, para ser divulgada, não é o legado de um desesperado, mas de um homem sufocado pela própria racionalidade.

É preciso que todos a conheçam.


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